Durante décadas — e, infelizmente, ainda hoje — muitos tutores foram levados a acreditar numa ideia aparentemente simples e lógica.
Durante décadas — e, infelizmente, ainda hoje — muitos tutores foram levados a acreditar numa ideia aparentemente simples e lógica:

Se o cão não obedece ou demonstra agressividade, é porque está a tentar dominar-nos…
À primeira vista, esta ideia parece fazer sentido. Oferece uma explicação rápida para comportamentos difíceis, aponta um “culpado” e, sobretudo, cria a sensação de que existe uma solução simples: assumir o controlo. Mas há um problema. A teoria da dominância nunca foi realmente sobre os cães — foi sobre a forma como nós, humanos, interpretamos o comportamento. Reflete a nossa necessidade de ordem, de previsibilidade e de segurança. É uma narrativa confortável, porque nos diz exatamente aquilo que queremos ouvir: que o cão age com intenção de “desafiar”, que a responsabilidade recai sobre ele e que comportamentos complexos podem ser reduzidos a explicações simples, onde controlar parece ser a resposta.
No entanto, a ciência conta uma história diferente, o conceito de dominância ao comportamento dos cães é, na maioria das vezes, incorreto e simplista. Os cães não estão a tentar “subir na hierarquia” dentro de casa — estão a comunicar, a reagir ao ambiente, a expressar emoções como medo, frustração, insegurança ou até falta de aprendizagem.
Quando interpretamos esses comportamentos como “dominância”, corremos o risco de ignorar a sua verdadeira causa. E é aí que surgem abordagens de treino baseadas no controlo e na punição, que não resolvem o problema — e muitas vezes até o agravam.
Mas… o que nos diz realmente a ciência? E por que razão esta teoria falha em explicar o comportamento do seu cão?
História
De onde veio esta teoria?
Na década de 1970, investigadores observaram lobos em cativeiro e registaram comportamentos agressivos e disputas por recursos. A partir dessas observações, surgiu a ideia de que os lobos — e, por extensão, os cães — estariam em constante luta por dominância.
Hoje sabemos que esses lobos viviam em grupos artificiais, sujeitos a elevados níveis de stress, em ambientes limitados e sem a estrutura de uma família natural, o que originava comportamentos atípicos. Ou seja, o que foi observado não refletia a realidade — algo que viria a ser mais tarde reconhecido e corrigido pelos próprios investigadores.
Na natureza, os lobos vivem em grupos familiares cooperativos, onde a “liderança” é de base parental e não assenta na força. Predominam a cooperação e a estabilidade, e não uma luta constante pelo poder.
Mas mesmo que essa ideia fosse correta para os lobos, há um ponto essencial a considerar: os cães não são lobos.
Evolução
Os cães não são lobos!
Embora partilhem um ancestral comum com os lobos e partilhem 99.9% do seu ADN, a domesticação moldou- o profundamente e o cão e o lobo moderno são animais distintos de várias formas.
Os cães evoluíram para coexistir com os humanos, desenvolvendo competências sociais próprias, bem como novas formas de aprendizagem e comunicação. Ao longo de milhares de anos, foram os indivíduos mais tolerantes, cooperativos e capazes de interpretar o comportamento humano que tiveram vantagem — não os mais agressivos. Comparativamente com o lobo e até com o chimpanzé (o nosso parente mais próximo), o cão demonstra uma sensibilidade muito superior à nossa linguagem corporal, expressões faciais e até emoções.
– O comportamento dos cães é influenciado pela aprendizagem, pelas emoções e pela experiência individual — não por uma “posição hierárquica” fixa.
– Os cães não procuram “subir na hierarquia” — procuram segurança, previsibilidade e acesso a recursos.
– A comunicação do cão privilegia sinais de apaziguamento e evitação de conflito — não confrontos constantes por poder.
Comportamento
Dominância é relacional, e dinâmica
Muitos tutores ouvem falar de cães “dominantes” ou do famoso “alfa”, mas a ciência mostra que isso não corresponde à realidade do comportamento canino, a dominância refere-se a relações entre indivíduos, e não a traços de personalidade fixos. Ou seja, não existe um cão que seja permanentemente dominante — essas situações dependem do contexto.
Por exemplo, um cão pode proteger a sua cama ou um brinquedo de outro cão ou mesmo de uma pessoa, sem que isso signifique que ele é “dominante” em todas as situações. A dominância é relacional e dinâmica: muda conforme o momento, o recurso em questão e a relação entre os indivíduos.
Da mesma forma, comportamentos agressivos raramente são uma tentativa de “dominar”. Na maioria dos casos, a agressividade é uma resposta a emoções ou estados internos, como medo, dor, frustração ou insegurança.
Compreender isto ajuda a interpretar melhor os comportamentos do seu cão e a aplicar métodos de treino baseados em confiança, compreensão e reforço positivo, em vez de medo ou força.
Autora
Patrícia Esteves
Comportamentalista Clínica - Yris HubEvidência Científica sobre Métodos de Treino Canino
A investigação científica nas áreas de comportamento animal e bem-estar tem demonstrado de forma consistente que os métodos de treino utilizados influenciam diretamente o comportamento, o estado emocional e a relação entre cão e tutor.
Estudos empíricos
- Hiby, E.F., Rooney, N.J., & John W. S. Bradshaw (2004)
Dog training methods: their use, effectiveness and interaction with behaviour and welfare.
Animal Welfare, 13(1), 63–69.
📌 Conclusão: métodos baseados em punição estão associados a maior incidência de problemas comportamentais e níveis mais baixos de bem-estar.
- Herron, M.E., Shofer, F.S., & Reisner, I.R. (2009)
Survey of the use and outcome of confrontational and non-confrontational training methods in client-owned dogs showing undesired behaviors.
Applied Animal Behaviour Science, 117(1–2), 47–54.
🔗 https://doi.org/10.1016/j.applanim.2008.12.011
📌 Conclusão: métodos confrontacionais estão associados a respostas aumentadas de medo e agressividade.
- Deldalle, S., & Gaunet, F. (2014)
Effects of two training methods on stress-related behaviors of the dog and on the dog–owner relationship.
Journal of Veterinary Behavior, 9(2), 58–65.
🔗 https://doi.org/10.1016/j.jveb.2013.11.004
📌 Conclusão: cães treinados com reforço positivo apresentam menos stress e relações mais cooperativas com os tutores.
- Blackwell, E.J., Twells, C., Seawright, A., & Casey, R.A. (2008)
The relationship between training methods and the occurrence of behavior problems in dogs.
Journal of Veterinary Behavior, 3(5), 207–217.
🔗 https://doi.org/10.1016/j.jveb.2007.10.008
📌 Conclusão: métodos punitivos estão associados a maior probabilidade de problemas comportamentais.
- Rooney, N.J., & Cowan, S. (2011)
Training methods and owner–dog interactions: Links with dog behaviour and learning ability.
Applied Animal Behaviour Science, 132(3–4), 169–177.
🔗 https://doi.org/10.1016/j.applanim.2011.03.007
📌 Conclusão: métodos positivos promovem melhor aprendizagem, comportamento e interação com o tutor.
Enquadramento teórico: o mito da dominância
- David L. Mech (1999)
Alpha status, dominance, and division of labor in wolf packs.
📌 Conclusão: as alcateias são estruturas familiares, não hierarquias baseadas em dominância agressiva.
- John W. S. Bradshaw (2011)
Dog Sense: How the New Science of Dog Behavior Can Make You A Better Friend to Your Pet.
📌 Conclusão: a aplicação do conceito de dominância ao comportamento canino é frequentemente incorreta e conduz a práticas de treino inadequadas.
- Bradshaw, J.W.S., Blackwell, E.J., & Casey, R.A. (2009)
Dominance in domestic dogs—useful construct or bad habit?
Journal of Veterinary Behavior, 4(3), 135–144.
📌 Conclusão: o conceito de dominância é frequentemente mal interpretado e mal aplicado no treino de cães.
Posições institucionais
- American Veterinary Society of Animal Behavior (2021)
Position Statement on Humane Dog Training
🔗 https://avsab.org/resources/position-statements/
📌 Recomenda exclusivamente métodos baseados em reforço positivo, desaconselhando técnicas aversivas devido aos seus efeitos negativos no bem-estar e comportamento.
- Cummings School of Veterinary Medicine at Tufts University (2024)
How Important is Dog Training?
🔗 https://vet.tufts.edu/news-events/news/how-important-dog-training
📌 Destaca a importância de abordagens baseadas na ciência do comportamento, promovendo treino ético, eficaz e centrado no bem-estar animal.
