Quando pensamos em problemas comportamentais em cães e gatos, tendemos a procurar explicações relacionadas com a educação, a genética, os traumas ou o ambiente...
Embora todos estes fatores sejam importantes, a ciência tem vindo a revelar um protagonista inesperado na saúde emocional dos animais: o microbioma intestinal.
Hoje sabemos que o intestino é muito mais do que um órgão digestivo. É um centro de comunicação constante com o cérebro, capaz de influenciar emoções, respostas ao stress, aprendizagem e comportamento. Esta relação, conhecida como eixo intestino-cérebro, está a transformar a forma como compreendemos e abordamos muitas doenças comportamentais.
- O que é o microbioma?
O microbioma é o conjunto de microrganismos que vivem no organismo, especialmente no trato gastrointestinal. Este ecossistema inclui milhares de espécies de bactérias, fungos, vírus e outros microrganismos que desempenham funções essenciais para a saúde.
Num animal saudável, existe um equilíbrio entre estas populações. Quando esse equilíbrio é perturbado — uma situação designada por disbiose — podem surgir consequências não apenas digestivas, mas também imunológicas, metabólicas e comportamentais.
- O intestino: o "segundo cérebro"
O intestino possui uma vasta rede neuronal, frequentemente designada por sistema nervoso entérico. Esta rede comunica continuamente com o cérebro através de vias nervosas, hormonais e imunológicas.
Curiosamente, grande parte dos neurotransmissores associados ao bem-estar emocional é produzida ou regulada no intestino. Entre eles destacam-se:
– Serotonina, associada à estabilidade emocional e ao controlo da ansiedade;
– Dopamina, relacionada com motivação e recompensa;
– GABA, um neurotransmissor com efeito calmante sobre o sistema nervoso.Quando a microbiota intestinal está desequilibrada, esta produção pode ser alterada, influenciando diretamente o estado emocional do animal.
- O microbioma e a doença comportamental
Na medicina integrativa, cada vez mais profissionais reconhecem que alguns problemas comportamentais podem estar associados a alterações do microbioma.
Embora o intestino raramente seja a única causa, pode funcionar como um fator agravante ou perpetuador de diversos quadros clínicos. Animais com microbiotas menos diversificadas tendem a apresentar respostas mais intensas ao stress. Podem revelar:
– Hipervigilância;
– Medos excessivos;
– Dificuldade em recuperar após situações stressantes;
– Ansiedade
– Reatividade a estímulos do dia a dia.Nestes casos, o intestino pode estar a contribuir para uma ativação constante do sistema nervoso.
A inflamação intestinal crónica e o desequilíbrio microbiano podem influenciar os mecanismos neurológicos envolvidos no controlo emocional.
- Sinais que podem indicar um envolvimento do intestino
Em muitos pacientes comportamentais, observam-se simultaneamente sinais digestivos e emocionais, tais como:
– Fezes inconsistentes;
– Flatulência frequente;
– Sensibilidade alimentar;
– Comichão ou problemas de pele;Esta associação pode fornecer pistas valiosas sobre a necessidade de uma avaliação mais abrangente.
- Como promover um microbioma saudável para melhorar o comportamento?
- Nutrição adequada
Uma alimentação equilibrada e adaptada às necessidades individuais do animal constitui a base da saúde intestinal e emocional.
Apoio com probióticos
Quando indicados pelo médico veterinário, podem ajudar a restaurar o equilíbrio da microbiota e apoiar a resposta ao stress.
- Redução do stress
Enriquecimento ambiental, previsibilidade das rotinas, exercício adequado e treino baseado em reforço positivo são ferramentas fundamentais para proteger tanto o cérebro como o intestino.
- Avaliação veterinária completa
Problemas comportamentais persistentes devem ser avaliados de forma abrangente. Em muitos casos, a investigação de causas digestivas, inflamatórias ou metabólicas permite identificar fatores que estavam a contribuir para o comportamento.
Autoras
Ana Serafim
Veterinária Intergrativa - Yris HubPatrícia Esteves
Comportamentalista Clínica - Yris HubReferências científicas
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Mondo, E., Barone, M., Soverini, M., D’Amico, F., Cocchi, M., Petrulli, C., Mattioli, M., Marliani, G., Candela, M., & Accorsi, P. A. (2020). Gut microbiome structure and adrenocortical activity in dogs with aggressive and phobic behavioral disorders. Heliyon, 6(1), e03311. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/338894691_Gut_microbiome_structure_and_adrenocortical_activity_in_dogs_with_aggressive_and_phobic_behavioral_disorders
Suchodolski, J. S. (2015). The importance of the microbiome and metabolome in health and disease of dogs and cats. Acta Veterinaria Scandinavica, 57(Suppl 1), K6. Disponível em: https://www.semanticscholar.org/paper/The-importance-of-the-microbiome-and-metabolome-in-Suchodolski/cdde71f9d8784c01d95d31ee17ab0748b2ae6d49
