O que é a Dor?
A dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável que pode afetar profundamente o bem-estar dos nossos animais. Tal como nos seres humanos, a dor nos animais pode ter diferentes origens e características, e compreendê-la é essencial para proporcionar um tratamento eficaz e adequado.
Tipos de Dor
- Dor Aguda (Adaptativa)
- Dor Crónica (Mal Adaptativa)
- Tipos de Dor Segundo o Mecanismo de Origem
Dor Aguda / Adaptativa está geralmente associada a uma lesão tecidular e surge como um sinal de alerta do organismo. É proporcional à gravidade da lesão e tende a desaparecer quando o estímulo que a provoca é resolvido. Este tipo de dor tem uma função fisiológica e protetora, ajudando o animal a evitar danos maiores.
Exemplos comuns: Feridas ou cortes; Procedimentos cirúrgicos; Infeções ou inflamações recentes
Nota: A dor aguda que não é corretamente identificada e tratada pode sofrer alterações nos mecanismos de perceção (neuromodulação) e evoluir para uma dor mal adaptativa ou crónica.
Dor Crónica / Mal Adaptativa prolonga-se para além do tempo de cura esperado de uma condição aguda. Pode não ter uma causa clara ou um desfecho previsível, e está frequentemente associada a doenças recorrentes ou degenerativas. Este tipo de dor pode provocar sofrimento emocional, alterações comportamentais e limitação da mobilidade.
Nota: Em casos de dor crónica, os animais podem experienciar episódios agudos de dor sobrepostos, agravando temporariamente o quadro clínico.
Tipos de Dor Segundo o Mecanismo de Origem
Dor Nociceptiva resulta da ativação de receptores específicos (nociceptores) em resposta a lesões nos tecidos. Pode ser somática – afeta pele e músculos (miofascial) – ou visceral – relacionada com órgãos internos.(ex. Gastrite, pancreatite)
Dor Neuropática é causada por lesão, inflamação ou disfunção do sistema nervoso — seja periférico ou central (ex hérnias discal, neuropatia diabética.
Dor Nociplástica designa um tipo de dor cuja origem não está diretamente atribuída a lesão tecidular ou nervosa, mas sim a alterações na forma como o sistema nervoso processa os sinais dolorosos (nocicepção), resultando em sensibilização central, onde há um aumento na percepção da dor, mesmo na ausência de uma causa física evidente.
Num quadro inicialmente nociceptivo e/ou neuropático, podem surgir mecanismos de neuromodulação que desencadeiam fenómenos nociplásticos.
Dor Mista – coexistem dois ou mais mecanismos de dor. Por exemplo, um cão com osteoartrite (dor nociceptiva) e compressão nervosa (dor neuropática) pode apresentar um quadro de dor mista.
Dor e a Sua Complexidade
A IASP (Associação Internacional para o Estudo da Dor) reconhece que:
“A descrição verbal é apenas um dos vários comportamentos possíveis para expressar dor; a incapacidade de comunicar não invalida a possibilidade de que um ser humano ou um animal não humano esteja a sentir dor.”
Nos pacientes não verbais — como os nossos animais — recorremos a sinais físicos e comportamentais para reconhecer e avaliar a dor. Torna-se por isso, fundamental conhecer bem o comportamento e os modos de comunicação da espécie em questão.
A World Small Animal Veterinary Association (WSAVA) esclarece:
“A experiência consciente da dor é uma emoção subjetiva, que pode ser vivenciada mesmo na ausência de um estímulo nocivo óbvio, e que pode ser modificada pelo medo, ansiedade, memória e stress.”
Dois cães submetidos ao mesmo procedimento cirúrgico não reagem necessariamente da mesma forma ao estímulo doloroso. Esta diferença na perceção e na reacção à dor é ainda mais acentuada entre diferentes espécies, assim como varia a nossa própria capacidade, enquanto humanos, para identificar e interpretar corretamente os sinais que elas manifestam.
“Dor e nocicepção são fenómenos distintos. A dor não pode ser inferida apenas com base na atividade dos neurónios sensoriais.” (2022 WSAVA Global Pain Management Guidelines)
A dor é uma experiência complexa que não se limita apenas à sensação física. Envolve vários fatores — como a forma como o corpo sente o estímulo doloroso (componente sensorial), o estado emocional e psicológico do animal (como medo ou ansiedade), e até o ambiente em que se encontra. Tudo isto influência a forma como a dor é percecionada e vivida.
Tratar a Dor: Uma Abordagem Multimodal
Dada a variedade de sinais e causas, muitas vezes é necessária uma abordagem interdisciplinar para um diagnóstico preciso e um plano terapêutico completo.
O tratamento da dor crónica é geralmente multimodal e pode incluir:
- Medicação analgésica e anti-inflamatória.
- Nutracêuticos.
- Terapias complementares (ex.: acupunctura, laserterapia).
- Técnicas de reabilitação física
- Alterações ambientais: enriquecimento ambiental e cognitivo para promover o bem-estar geral.
- Dietoterapia.
- Apoio comportamental e treino baseado em cooperação.
Como Saber se o Seu Animal Está com Dor?
Se o seu cão ou gato está mais quieto, agressivo, ansioso, evita o contacto, ou simplesmente “não parece ele mesmo”…
🔎 Pode estar a sentir dor — mesmo que não pareça haver uma causa evidente.
👉 Se tem dúvidas, no próximo post explicamos como reconhecer os principais sinais de dor nos animais de companhia e o que pode fazer para ajudar: Dor em silêncio: Capítulo II – O que o cão e gato nos tentam dizer, sem palavras.
Autora
Ana Serafim
Veterinária Intergrativa - Yris HubBibliografia
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Monteiro, B. P., Lascelles, B. D. X., Murrell, J., Robertson, S., Steagall, P. V. M., & Wright, B. (2022). WSAVA guidelines for the recognition, assessment and treatment of pain. Journal of Small Animal Practice. https://doi.org/10.1111/jsap.13566
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International Association for the Study of Pain (IASP). (n.d.). Site oficial. Recuperado de: https://www.iasp-pain.org
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Zero Pain Philosophy. (n.d.). Iniciativa para educação e manejo da dor em medicina veterinária. Recuperado de: https://www.zeropainphilosophy.com
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Mencalha, R. (2019). Abordagem clínica da dor crônica em cães e gatos: Identificação e tratamento (1ª ed.). MedVep. ISBN: 978-85-66759-09-9.
